HAI KAI (Paulo Leminski)

O ideograma de kawa, "rio", em japonês, pictograma de um fluxo de água corrente, sempre me pareceu representar (na vertical) o esquema do haikai, o sangue dos três versos escorrendo na parede da página..
HAI

       Eis que nasce completo
e, ao morrer, morre germe,
       o desejo, analfabeto,
de saber como reger-me,
       ah, saber como me ajeito
para que eu seja quem fui,
       eis o que nasce perfeito
e, ao crescer, diminui.

KAI

       Mínimo templo
para um deus pequeno,
       aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
       meu extremo anjo de vanguarda.

       De que máscara
se gaba sua lástima,
       de que vaga
se vangloria sua história,
       saiba quem saiba.

       A mim me basta
a sombra que se deixa,
       o corpo que se afasta.

[do livro Distraídos Venceremos]

[amei em cheio] (Paulo Leminski)

          amei em cheio
meio amei-o
          meio não amei-o

[do livro Distraídos Venceremos]

[tudo que eu diga seja poesia] (Paulo Leminski)

moinho de versos
movido a vento
em noites de boemia

vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia

[vazio agudo] (Paulo Leminski)

vazio agudo
ando meio
cheio de tudo

[casa com cachorro brabo] (Paulo Leminski)

casa com cachorro brabo
meu anjo da guarda
                             abana o rabo

[o que o barro quer] (Paulo Leminski)

o barro
toma a forma
que você quiser

você nem sabe
estar fazendo apenas
o que o barro quer

[para que leda me leia] (Paulo Leminski)

       para que leda me leia
precisa papel de seda
       precisa pedra e areia
para que leia me leda

       precisa lenda e certeza
precisa ser e sereia
       para que apenas me veja

       pena que seja leda
quem quer você que me leia

[do livro Distraídos Venceremos]

[marginal é quem escreve à margem] (Paulo Leminski)

           Marginal é quem escreve à margem,
deixando branca a página
           para que a paisagem passe
e deixe tudo claro à sua passagem.

           Marginal, escrever na entrelinha,
sem nunca saber direito
           quem veio primeiro,
o ovo ou a galinha.

[do livro Distraídos Venceremos]

Três Metades (Paulo Leminski)

Meio dia,
um dia e meio,
meio dia, meio noite,
metade deste poema
não sai na fotografia,
metade, metade foi-se.

Mas eis que a terça metade,
aquela que é menos dose
de matemática verdade
do que soco, tiro, ou coice,
vai e vem como coisa
de ou, de nem, ou de quase.

Como se a gente tivesse
metades que não combinam,
três partes, destempestades,
três vezes ou vezes três,
como se quase, existindo,
só nos faltasse o talvez.

[do livro Distraídos Venceremos]

Vezes Versus Reveses (Paulo Leminski)

     um flash back
um flash back dentro de um flash back
     um flash back dentro de um flash back de
     um flash back
um flash back dentro do terceiro flash back
     a memória cai dentro da memória
pedraflor na água lisa
     tudo cansa (flash back)
menos a lembrança da lembrança da lembrança
     da lembrança

[do livro La Vie en Close]

[cheio de tudo] (Paulo Leminski)

      vazio agudo
ando meio
      cheio de tudo

[do livro La Vie en Close]

[carreira solo] (Paulo Leminski)

     estrela cadente eu olho
o céu partiu
     para uma carreira solo

[do livro La Vie en Close]

Download do livro Distraídos Venceremos, de Paulo Leminski

Capa do livro Distraídos Venceremos
"Distraídos Venceremos", do Paulo Leminski
Adicionado por Patricia, no Scrib

Por um lindésimo de segundo (Paulo Leminski)

       tudo em mim
anda a mil
       tudo assim
tudo por um fio
       tudo feito
tudo estivesse no cio
       tudo pisando macio
tudo psiu

       tudo em minha volta
anda às tontas
       como se as coisas
fossem todas
       afinal de contas

[do livro Distraídos Venceremos]

Minifesto (Paulo Leminski)

        ave a raiva desta noite
a baita lasca fúria abrupta
        louca besta vaca solta
ruiva luz que contra o dia
        tanto e tarde madrugastes

        morra a calma desta tarde
morra em ouro
        enfim, mais seda
a morte, essa fraude,
        quando próspera

        viva e morra sobretudo
este dia, metal vil,
        surdo, cego e mudo,
nele tudo foi e, se ser foi tudo,
        já nem tudo nem sei
se vai saber a primavera
        ou se um dia saberei
que nem eu saber nem ser nem era

[do livro Distraídos Venceremos]

A lei do quão (Paulo Leminski)

       Deve ocorrer em breve
uma brisa que leve
       um jeito de chuva
à última branca de neve.

       Até lá, observe-se
a mais estrita disciplina.
       A sombra máxima
pode vir da luz mínima.

[do livro Distraídos Venceremos]

Incenso fosse música (Paulo Leminski)

     isso de querer
ser exatamente aquilo
     que a gente é
ainda vai
     nos levar além

[o bandido que sabia latim] (Paulo Leminski)

 era uma vez
um bandido que sabia
  latim por tintim

Desencontrários (Paulo Leminski)

   Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
   Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
   Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

   Mandei a frase sonhar,
e ela foi num labirinto.
   Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
   para conquistar um império extinto.

Arte do chá (Paulo Leminski)

   ainda ontem
convidei um amigo
   para ficar em silêncio
comigo

   ele veio
meio a esmo
   praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo

[acordei bemol] (Paulo Leminski)

Acordei bemol
Tudo estava sustenido

Sol fazia
Só não fazia sentido

[amar é um elo] (Paulo Leminski)

   amar é um elo
entre o azul
   e o amarelo

Amor Bastante (Paulo Leminski)

quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante

Bem no fundo (Paulo Leminski)

    no fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
    a gente gostaria
de ver nosso problemas
    resolvidos por decreto

    a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
    é considerada nula
e sobre ela -- silêncio perpétuo

    extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
    lá pra trás nã há nada,
e nada mais

    mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
    e aos domingos saem todos passear
o problema, sua senhora
    e outros pequenos probleminhas

A lua no cinema (Paulo Leminski)

   A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
   a história de uma estrela
que não tinha namorado.

   Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
   dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

   Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
   e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.

   A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
   que até hoje a lua insiste:
- Amanheça, por favor!

Apagar-me (Paulo Leminski)

Apagar-me 
diluir-me 
desmanchar-me 
até que depois 
de mim 
de nós 
de tudo 
não reste mais 
que o charme.

[acendo o cigarro no incenso] (Paulo Leminski)

dia sem senso
acendo o cigarro
no incenso

Incenso fosse música (Paulo Leminski)

      isso de querer
ser exatamente aquilo
      que a gente é
ainda vai
      nos levar além

[nem fale em amor / que amor é isto] (Paulo Leminski)

       você está tão longe
que às vezes penso
       que nem existo

       nem fale em amor
que amor é isto

Ímpar ou Ímpar (Paulo Leminski)

     Pouco rimo tanto com faz.
Rimo logo ando com quando,
     mirando menos com mais.
Rimo, rimas, miras, rimos,
     como se todos rimássemos,
como se todos nós ríssemos,
     se amar (rimar) fosse fácil.

     Vida, coisa pra ser dita,
como é fita este fado que me mata.
     Mal o digo, já meu siso se conflita
com a cisma que, infinita, me dilata.

[o luar de janeiro é primeiro de abril] (Paulo Leminski)

      vez como aquela
só mesmo a primeira
      mal cheguei a chorar
uma lágrima inteira

      largue uma lágrima
o primeiro que viu
      o luar de janeiro
é primeiro de abril

Com quantos Paulos (Paulo Leminski)

     paulos paulos paulos
quantos paulos são preciso
     para fazer um são paulo?

     idades idades idades
quanto dá uma alma
     dividida por duas cidades?

Motim de Mim (Paulo Leminski)

(1968-1988)
XX anos de xis,
XX anos de xerox,
   XX anos de xadrez,
não busquei o sucesso,
   não busquei o fracasso,
busquei o acaso,
   esse deus que eu desfaço.

[do que o acaso é capaz] (Paulo Leminski)

       atrasos do acaso
cuidados
       que não quero mais

       o que era pra vir
veio tarde
       e essa tarde não sabe
do que o acaso é capaz

[perto do osso a carne é mais gostosa] (Paulo Leminski)

       sossegue coração
ainda não é agora
       a confusão prossegue
sonhos a fora

       calma calma
logo mais a gente goza
       perto do osso
a carne é mais gostosa

Sete assuntos por segundo (Paulo Leminski)

“Ut pictura, poesis...”
(Horácio)
    Para que serve a pintura
a não ser quando apresenta
    precisamente a procura
daquilo que mais aparenta,
    quando ministra quarenta
enigmas vezes setenta?

Como abater uma nuvem a tiros (Paulo Leminski)

     sirenes, bares em chamas,
carros se chocando,
     a noite me chama,
a coisa escrita em sangue
     nas paredes das danceterias
e dos hospitais,
     os poemas incompletos
e o vermelho sempre verde dos sinais

Curitibas (Paulo Leminski)

      Conheço esta cidade
como a palma da minha pica.
      Sei onde o palácio
sei onde a fonte fica,

      Só não sei da saudade
a fina flor que fabrica.
      Ser, eu sei. Quem sabe,
esta cidade me significa.

[do livro La Vie en Close]

[um bom poema leva anos]

      um bom poema
leva anos
      cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
      seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
      sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
      três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
      uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

Merda e ouro (Paulo Leminski)

Merda é veneno.
No entanto, não há nada
que seja mais bonito
que uma bela cagada.
Cagam ricos, cagam padres,
cagam reis e cagam fadas.
Não há merda que se compare
à bosta da pessoa amada.

O náufrago naugrafo (Paulo Leminski)

   a letra A a
funda no A
   tlântico
e pacífico com
   templo a luta
entre a rápida letra
   e o oceano
lentro

   assim
fundo e me afundo
   de todos os náufragos
náugrafo
   o náufrago
mais
   profundo

O par que me parece (Paulo Leminski)

   Pesa dentro de mim
o idioma que não fiz,
   aquela língua sem fim
feita de ais e de aquis.
   Era uma língua bonita,
música, mais que palavra,
   alguma coisa de hitita,
praia do mar de Java.
   Um idioma perfeito,
quase não tinha objeto.
   Pronomes do caso reto,
nunca acabavam sujeitos.
   Tudo era seu múltiplo,
verbo, triplo, prolixo.
   Gritos eram os únicos.
O resto, ia pro lixo.
   Dois leões em cada pardo,
dois saltos em cada pulo,
   eu que só via a metade,
silêncio, está tudo duplo.

Passe a expressão (Paulo Leminski)

   Esses tais artefatos
que diriam minha angústia
   tem umas que vêm fácl,
tem muitas que me custa.
   Tem horas que é caco de vidro,
meses que é feito um grito,
   tem horas que eu nem duvido,
tem dis que eu acredito.
   Então seremos todos gênios
quando as privadas do mundo
   vomitarem de volta
todos os papéis higiênicos.

Poesia: 1970 (Paulo Leminski)

   Tudo o que eu faço
alguém em mim que eu desprezo
   sempre acha o máximo.

   Mal rabisco,
não dá mais para mudar nada.
   Já é um clássico.

Rimas da moda (Paulo Leminski)

1930       1960        1980

amor     homem    ama
dor         come       cama
                fome

Arte do chá (Paulo Leminski)

ainda ontem
convidei um amigo
  para ficar em silêncio
comigo

  ele veio
meio a esmo
  praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo

Lápide 1 (Paulo Leminski)

            LÁPIDE 1
  epitáfio para o corpo

 Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
 Este silêncio, acredito,
são suas obras completas.

Saudosa Amnésia (Paulo Leminski)

a um amigo que perdeu a memória

  Memória é coisa recente.
Até ontem, quem lembrava?
  A coisa veio antes,
ou, antes, foi a palavra?
  Ao perder a lembrança.
grande coisa não se perde.
  Nuvens, são sempre brancas.
O mar? Continua verde.
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Este é apenas um acervo de poemas de Leminski encontradas na internet, com objetivo de divulgar a obra poética deste maravilhoso poeta. Compre os livros!

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